31 de out de 2016

Medicamentos e Idosos




O envelhecimento da população é tido como uma característica de países desenvolvidos, pois reflete a melhoria nas condições de vida da população e os avanços da medicina. O Brasil, com suas mudanças sociais e políticas ocorridas nos últimos anos, alcançou esse patamar de crescimento da população idosa. Dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos mostram um crescimento de 55% da população idosa desde 2001, o que equivale a 10% da população total ter mais de 60 anos. E a projeção é que cresça cada vez mais, podendo chegar a cerca de 12% da população total em 2020 e até 30% em 20501.
Assim como em outros ramos da sociedade, para os profissionais de saúde é muito importante saber lidar com essa mudança do perfil demográfico, visto que idosos necessitam de cuidados e atenção diferenciada. O idoso apresenta mudanças fisiológicas que podem causar debilitações e mal funcionamento do organismo e, consequentemente, alterações nos padrões farmacocinéticos de determinados fármacos2. É comum a coexistência de múltiplas condições clínicas, gerando maior cautela na escolha e avaliação do tratamento. Com o aumento da idade, aumenta a chance de uso contínuo de medicamentos, pelo desenvolvimento de doenças crônicas3. Quanto às modificações fisiológicas que ocorrem no corpo dos idosos, é importante ressaltar que nem todas as pessoas passam pelas mesmas mudanças ao mesmo tempo e não existe uma perda de função mais acelerada de cada órgão, mas sim um acúmulo de um maior número de sistemas em declínio funcional4.

Em relação a absorção dos fármacos, embora não existam evidências substanciais que seja alterada fortemente, pode ocorrer por mudança nos hábitos nutricionais, aumento no uso de fármacos não prescritos e mudanças no esvaziamento gástrico. Idosos também possuem uma menor massa e menor volume de água corporais, aumento na proporção de tecido adiposo, além da diminuição de albumina sérica, que dificulta a distribuição de determinados fármacos com características de ácidos fracos pelo organismo. Em contrapartida, existe um aumento de alfa-1 glicoproteína que liga diversos fármacos de bases fracas. Por exemplo, a dose inicial de digoxina em pacientes idosos deve ser diminuída devido ao volume aparente de distribuição diminuído. A capacidade do fígado metabolizar fármacos também é reduzida, com uma permanência por mais tempo da porção ativa do fármaco na circulação ou uma demora no início de ação em pró-fármacos que necessitam ser metabolizados para terem sua ação. Já o rim, como principal órgão envolvido na eliminação de fármacos, a diminuição de sua função é de vital importância e deve ser avaliada. A principal marca desse declínio de função é o aumento da meia-vida de diversos fármacos e a possibilidade de acúmulo em níveis tóxicos das substâncias4.

Outro importante fator que resulta em uma menor efetividade do tratamento é a questão da adesão. Não raramente, o tratamento farmacológico destes pacientes envolve um alto número de medicamentos (polifarmácia) 2. Embora não exista uma definição específica de “polifarmácia”, tem sido caracterizada pelo uso de 4 ou mais medicamentos. Com o uso de diversos medicamentos, aumentam as chances de reações adversas e interações medicamentosas, o que reforça ainda mais a necessidade de uma efetiva orientação pelo farmacêutico, tanto centradas no paciente quanto na equipe de saúde 2,5.

Resumindo, devido a mudança no perfil farmacocinético e no maior número de problemas crônicos em pessoas idosas, é necessária atenção redobrada neste grupo populacional. O farmacêutico pode desempenhar um papel fundamental na análise das prescrições e no acompanhamento farmacoterapêutico, elementos essenciais da Assistência Farmacêutica.

Texto elaborado por Gustavo F Marcowich
Revisado por Prof. Farm. Tatiane da Silva dal Pizzol


1.     BRASIL. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS. Dados sobre envelhecimento no Brasil. 2012. Disponível em: http://www.sdh.gov.br/assuntos/pessoa-idosa/dados-estatisticos/DadossobreoenvelhecimentonoBrasil.pdf Acessado em: 17/10/2016
2.     BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Formulário terapêutico nacional 2010: Rename 2010 / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
3.     Williams, Brie; Chang, Anna. Current Diagnosis and Treatment: Geriatrics. 2ª Edição. Estados Unidos: McGraw-Hill Education, 2014.
4.     Katzung, BG; Trever, AJ. Basic & Clinical Pharmacology. 13ª Edição. Estados Unidos: McGraw-Hill Education, 2015).

5.     Patterson SM e al. Interventions to improve the appropriate use of polypharmacy for older people. Cochrane Database Syst Rev. 2014 Oct 7;(10):CD008165. doi: 10.1002/14651858.CD008165.pub3.

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